Apetece-me desabafar

Apetece-me mesmo desabafar

Apetece-me mesmo desabafar! Aliás apetece-me desabafar há já algum tempo e nunca o fiz. Dizem que faz bem… É disso que eu preciso!

A reboque desta quadra natalícia, cheia de apelos à solidariedade e ao amor ao próximo, entendi que deveria começar a ter alguns desabafos do que me acompanha no dia-a-dia e me perturba. Se calhar, não deveria perturbar – quem está nas lides há muito tempo afirma que é uma questão de hábito – mas como eu sou uma garota, até ao dia de hoje, não me habituei.

A maior parte da minha vida profissional desenrolou-se no sector privado e sempre me imaginei a findar o meu percurso de profissional no privado. Mas a vida prega-nos partidas. Por força das circuntâncias, apresentei candidatura num concurso público e consegui entrar.

Essa foi a parte boa, vou reformular, muito boa, visto o mercado de trabalho não estar nada fácil. Objetivo cumprido!

Agora habituei-me a pensar em mim como uma “civil servant”. E é precisamente no espiríto civil servant, em época natalícia, que vou desabafar.

No meu quotidiano, dou por mim a questionar-me do seguinte:

– Será que esta pessoa, de nome António costuma viajar? Será que ele vai para o aeroporto para embarcar para o Brasil, leva consigo a bagagem, os bilhetes e o cartão de cidadão e pensa que vai embarcar? Mas não vai, vai ficar em Portugal. Não embarca sem passaporte, pois é…

– Por sua vez, a Maria, que até deve ser uma pessoa simpática, provavelmente vai ao Centro Comercial comprar uma prenda para o neto, que faz anos, sem carteira. Escolhe o presente, e quando chega à altura do pagamento… Pois, vai ter de regressar a casa, para já, sem o presente do menino e regressar àquela loja com a sua carteira.

– Este casal, Francisco e Carlota, não percebem nada de computadores. Todos os anos devem deslocar-se ao apoio da sua Junta de Freguesia da área de residência para tratar do seu IRS. E fazem muito bem! Porém teimam sempre em levar, cada um, o seu Bilhete de Identidade. Acham que podem tratar do assunto. Mas a funcionária mudou, é nova. Pois… vão ter de voltar lá num outro dia. Precisam de saber o número de identificação fiscal de cada um.

Se um qualquer cidadão nacional não sai de Portugal para um qualquer país Fora da União Europeia sem passaporte, não vai às compras sem carteira e não trata do IRS sem Número de Identificação Fiscal, por que raio se dirige à Segurança Social para tratar dum assunto do seu interesse sem se identificar? Não, não é o número de Utente do Serviço Nacional de Saúde, tão pouco, o Número de Contribuinte Fiscal, nem o número de Bilhete de Identidade, e muito menos é suficiente o Número de Telemóvel Pessoal.

O António, a Maria e o casal Francisco e Carlota, se quiserem tratar de um assunto com a Segurança Social devem saber o seu NISS – Número de Identificação da Segurança Social.

Isto que me parece absoluta e totalmente linear, não o é para muitos, e eu não consigo perceber porquê, caramba! Entendo como falta de respeito para com a Instituição e aborrece-me sobremaneira. É uma questão de informação, formação e cidadania!

Tem lógica?

E qual é a lógica de estar sempre a dar o número de telemóvel? Qual o motivo? Alguém consegue explicar-me? É mais fácil resolver por telefone, falar! Certo, aceito! Com que segurança o cidadão fica (prova) se houver algum contratempo? Para a maioria, se não puser o seu próprio aparelho a gravar a conversa, nenhuma. Será a palavra do cidadão descrevendo que sucedeu de determinada maneira, ponto. Isso é bom? Até pode não ser. Agora que é prático é, nisso estamos sintonizados.

A questão do número do telemóvel para tudo, quanto a mim, é bem engraçada. Afinal vivemos num país rico, e eu não dei por isso, sou burra. Então se um organismo público de um qualquer Estado fosse comunicar com todos os cidadãos inscritos numa Segurança Social – reparem, cidadãos registados de outras nacionalidades incluídos – que têm uma questão ou um assunto a tratar, ou pendente, a telefonar para o telemóvel de cada um, quais seriam os gastos em comunicações ao final de um ano? Será que em geral, as pessoas não se importam de descontar mais para a Segurança Social todos os meses a fim de terem a possibilidade de tratar de tudo com o Instituto por telemóvel? Isto é, que fique claro, com o organismo público a contatá-lo a si para o seu número de telemóvel para resolver o seu assunto. É absurdo.

Uma instituição pública não é uma empresa privada de telecomunicações! Onde é que está a dúvida? Pelos vistos só em mim… Fico atónita. Então coloca-se o número de telemóvel logo abaixo do nome (às vezes só o nome próprio) mas o número da Segurança Social não! Perfeito!

E tenho mesmo de desabafar

Eu não sou nada, nem ninguém. Sou uma garota, já sabem!

Como garota que sou, num novo quadro profissional, a partir de certo momento, deixei de ouvir qualquer noticía inerente a segurança social nos meios de comunicação convencionais, nomeadamente canais televisivos. Recuso-me!

A comunicação social em Portugal em vez de informar o público convenientemente em assuntos sociais e fomentar uma atitude cívica digna e coerente de todos os cidadãos, corre atrás de outras coisas, bem mais fáceis, que atraem grandes audiências.

Meus senhores, se considerarem que por hipótese puramente académica, em 1000 assuntos, 90% vêm mal identificados e que alguém tem de pesquisar para identificar e poder começar a tratar, e mesmo que cada pesquisa demore apenas 2 minutos e tenha sucesso (às vezes não tem) serão:

900 assuntos x 2 minutos = 1800 minutos = 30 horas de desperdício de tempo

Portanto, se há atrasos, a culpa é solidária, é de Todos Nós. Isto é só aflorar o tema, como posso, levantando uma pontinha de um pequeno primeiro véu.

Contribuir para a mudança

Contribuir para a mudança, não é só tecnologia: é informação, preparação e perserverança até conseguir alterar-se um pouco a mentalidade de uma comunidade. Dá trabalho, exige tempo, mas não é impossível. Necessário é todos fazerem um esforço, dar o seu contributo, visto que demais a mais neste país á beira-mar plantado temos uma pirâmide etária envelhecida, e com o nível de formação possível para o cantinho onde habitamos.

Se um dia, deixar de existir uma Segurança Social, é bem pior não para todos, note-se, mas para grande parte de nós! Neste mundo em mudança, assolado por um novo virus, nada deve ser tomado como dado adquirido. Todos sabemos disso, andamos só… distraídos.

Estou na função pública porque preciso de trabalhar. Até estou a gostar do que faço. Mas se pudesse, saía. Sou uma garota endiabrada, mas fui educada a ter respeito por pessoas e Instituições.

Não gosto de tentar fazer o meu melhor e ouvir um monte de disparates de quem e para quem, estou focada em grande parte dos meus dias. Sou nova por ali, e não passava disso, vinha-me embora. Ah, palavra que vinha, não pelo ambiente interno, não pelo trabalho, mas porque é altamente desmotivante constatar que na sua grande maioria, o cidadão comum a quem o Estado está a prestar um serviço, só sabe dizer, escrever e falar, mal.

A todos um Bom Natal! E para mim também!

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